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Poucas
pessoas representam tanto para a Santa Isabel como Valdomiro
Furlan. Aos 70 anos de idade, ele é uma das pessoas que
iniciaram o loteamento na década de 50. Vindo de Antônio
Prado para trabalhar junto com o tio, Antônio Furlan,
já falecido, Valdomiro terraplanava os terrenos da imobiliária
loteadora e desde aquela época não deixou de trabalhar
na Santa Isabel. Atualmente mora em Porto Alegre, mas sua loja
de ferragens, a Construfer, funciona em dois pontos ao longo
da avenida Liberdade. |
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Adepto
da comida italiana, adora polenta, vinhos, queijos e salames,
não dispensando o churrasco, embora não possa
exagerar devido à idade. Pai de quatro filhas: Ione,
Jane, Andréia e Cláudia, frutos do casamento com
Graciosa Cenci Furlan, Valdomiro Furlan gosta de jogar bocha
e pratica hidroginástica uma vez por semana. Em entrevista
à Revista da Santa Isabel ele contou sobre sua chegada
ao bairro e sua trajetória até os dias de hoje: |
Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista: Quando o senhor chegou em Viamão?
Valdomiro Furlan: Eu cheguei no dia 04 de agosto
de 1956 às 11 horas da manhã.
Revista:
Que tipo de trabalho o senhor realizava naquela época?
Valdomiro: Quando cheguei, fui morar com um tio meu,
falecido já, que me arrumou um serviço aqui. Comecei
a trabalhar com ele. Não entendia nada, não sabia
nada. Vim da colônia e não entendia coisa nenhuma.
Vontade de trabalhar não faltava, mas logo, logo eu comecei
a trabalhar com ele. Como o salário mínimo sempre
foi pouco, mas naquela época ainda era um pouco maior
que agora, então eu procurava fazer o máximo,
trabalhar aquelas horas na firma, pegar um biscatezinho aqui,
pegar uma coisinha ali depois do horário, no fim de semana
e sempre, sempre eu fazia quase outro salário por fora.
Naquela época, a empresa, a loteadora, botava água
até por dentro do terreno. Largava
um cano ali e daí cada um depois puxava. Daí a
senhora dizia “mas eu quero um cano aqui nos fundos, outro
ali no tanque”, e eu dizia: então eu faço.
Naquela época se carregava, pra fazer uma instalação
de água, tinha que ter um carrinho de mão e pesado.
Era
tudo cano galvanizado, um monte de ferramenta graúda.
Tinha as tarrachas que eram enormes, pesando dez, doze quilos.
Fiz muito isso daí.
Revista: E com o seu tio, o que o senhor fazia?
Valdomiro: Com ele eu fazia marcação
de terrenos, tapava os buracos nas ruas, abria uma valeta. Aqui
na avenida mesmo(liberdade), ali onde hoje é a Karen
tinha um valão, onde não podia passar nenhum carro.
Nós colocamos coqueiros lá, puxando terra com
carrinho de mão e conseguimos fazer uma passagem por
cima. Eu trabalhava na rua com ele.
Revista: O senhor já trabalhava lá em
Antônio Prado?
Valdomiro:
Trabalhava na roça. Vim de lá aos 19 anos e já
trabalhava. Desde os nove anos já trabalhava na roça,
claro que não como um adulto, mas já trabalhava.
O pessoal lá de fora acostuma cedo. Quando eu queria
sair da colônia de qualquer forma e não achei uma
forma de sair em seguida, na frente de casa tinha uma sapataria
onde um cara fabricava sapatos, chinelos, botas, e eu fui trabalhar
lá com ele. Ele disse assim: “mas tu sabe fazer
alguma coisa” e eu disse não sei fazer nada, mas
quero aprender. Ele disse: “tu pode vir, vou te ensinar,
mas não vou te pagar nada”. Eu trabalhei quatro
meses, depois eu vim embora de lá, de graça, não
ganhava nem a comida. Eu fiquei satisfeito de ter trabalhado.
Aprendi. Até hoje eu sei, se precisar fazer alguma coisa,
eu faço.
Revista:
O seu tio veio morar aqui antes do
senhor?
Valdomiro:
Ele
veio antes que eu. Ele veio mais ou menos um ano antes de mim
como encarregado da empresa loteadora.
Revista: Como era a Santa Isabel naquela época?
Valdomiro:
Eu
não tenho bem certeza, mas parece que naquela época,
da Lomba do Sabão pra cá, tinha apenas 14 casas.
O fim da linha do ônibus era ali onde é a loja
Arno agora. Eram dois ônibus que faziam a volta ali, onde
tinha uma construção que o polonês não
conseguiu terminar.
Revista:
Enfrentou alguma dificuldade quando chegou aqui?
Valdomiro:
Pra
mim foi um problema grave quando cheguei aqui. Lá fora,
estava acostumado a comer comida italiana. Pela manhã
era polenta, carne de porco, ovo frito e um café reforçado.
Cheguei aqui, uma tacinha de café, uma ou duas fatias
de pão com manteiga. O primeiro carroceiro que eu encontrava
comprava meio quilo de banana pra matar a fome. Não
é que aqui se estivesse errado, mas era o sistema que
era diferente. Estavam acostumados com aquilo ali e não
tinha por que mudar.
Revista:
O senhor sempre voltava a Antônio Prado?
Valdomiro:
Ah,
voltava seguido. Era muita saudade, saudade mesmo. Eu não
sabia que sair de casa dava tanta saudade.
Revista:
Como surgiu a Cons-trufer?
Valdomiro:
Eu
nem esperava trabalhar com ferragem. Comecei a construir junto
com um amigo meu. Daí fui arrumando dinheiro e montei
uma serralheria pequena só pra fazer portas, janelas
e grades. As casas que eu fazia, gradeada e com porta de ferro
tinha a preferência dos outros porque eram mais seguras.
Fui incrementando e a construção na época,
o Sarney cortou o financiamento pela Caixa Econômica
Federal, aí comecei a empurrar a serralheria. Fazia
porta, estruturas metálicas, aqueles pavilhões
na beira da faixa de quem vai para Cidreira, um cinco ou seis,
foram tudo nós que fizemos. Eu vi que vender material
valia a pena e comecei a enfraquecer a serralheria e aumentar
a venda de materiais.
Revista:
Qual foi o seu envolvimento com a política em Viamão?
Valdomiro:
Uma vez assumi uma diretoria da prefeitura, no tempo do Canelinha,
em 72, mas nunca me envolvi com política. Um dia ele
disse: “olha Furlan, tu me dá uma mão.
Se eu for eleito tu vai trabalhar comigo”. Mas eu não
levei aquilo a sério e aí, quando ele foi eleito
veio me procurar. Ele disse “ó Furlan, tu vai
trabalhar comigo” e como eu entendia de máquina,
entendia de terraplanagem e tinha trabalhado com isso, ele
disse: "tu vai cuidar da prefeitura, tu vai assumir como
diretor de obras". Pra falar a verdade fiquei dois anos.
Tinha cargo de confiança e podia ter ficado quatro
anos, mas como no meio disso eu tive um problema de estômago,
aproveitei o embalo e disse que estava
com um probleminha e não fui mais. Mas fui muito bem,
não posso me queixar de ninguém. Hoje em dia,
tenho colaborado com um ou com outro, pouco, mas tenho colaborado
alguma coisa. Tiveram me procurando uma vez para vice-prefeito
e outra para vereador. Eu queria ser vereador, mas a proposta
deles não serviu. A minha proposta era a seguinte:
como vim pra Viamão e fui bem sucedido, graças
a Deus, não posso me queixar, e toda Viamão
anda numa pobreza desgraçada, ninguém tem dinheiro.
Há alguns anos atrás, nas prefeituras de todos
os municípios, vereador era quase um cargo de confiança.
Quem era vereador em Viamão: uma pessoa bem sucedida
no local, que tivesse a situação financeira
definida, ela ia pra lá defender a causa daquela comunidade,
mas não ganhava nada, era de graça. Depois foram
indo, indo. Hoje a maioria que está lá é
jovem, não quero dizer que jovem não tem experiência,
mas jovem não pode trabalhar de graça. Jovem
tá começando a vida dele e tem que fazer alguma
coisa. E aí sugeri: não, eu quero ser vereador
por quatro anos. Quatro anos chega. Mas eu quero ser vereador
e não quero receber um tostão da prefeitura.
E quero que todo mundo me acompanhe. A cada fim de mês
vamos ver qual é o lado que se aplica este dinheiro.
Juntar este dinheiro para fazer alguma coisa em benefício
da comunidade de Viamão. Mas não foi aceita
a minha proposta.
Revista: E em algum movimento para ajudar a Santa
Isabel, o senhor participou?
Valdomiro:
Todas as reuniões que tiveram para a emancipação
eu participei, mas procurei não me envolver. Sempre
me envolvi muito na igreja, na construção. Eu
fazia muita promoção. Preços pra que
todos tivessem acesso. No dia da festa da padroeira fazia
um almoço para as crianças que apareciam e não
tinham dinheiro pra comer. Eu gostava de participar. Às
vezes eu não participo em certas coisas por falta de
oportunidade ou eu não sei chegar nas pessoas.
Revista: Na sua opinião, o que a Santa Isabel
tem de ponto positivo?
Valdomiro:
A
Santa Isabel tem um povo lutador, trabalhador. Pena que muita
gente está no meio só pra se aproveitar.
Revista: E qual será o futuro da Santa Isabel?
Valdomiro:
Eu
acho que a Santa Isabel tem futuro. Tem recursos e também
potencial e aos poucos tem que reverter esta situação,
estas badernas, estes caras que roubam. Melhorar e dar a volta
por cima. A maior coisa que deveria existir é os comerciantes
se unirem. Os comerciantes devem ser unidos. Se eu tenho meu
comércio aqui é claro que eu defendo o meu.
Quero que o cara compre de mim e não dele, isso é
lógico. Ele quer que comprem dele e não de mim,
mas vamos viver juntos. Vamos vender nossos produtos ao mesmo
tempo. O pessoal aqui, alguns, querem crescer às custas
do outro. Se o outro quebrar eu vou ganhar sozinho. Eu não
penso desta forma.
Revista: O que mudou na Santa Isabel durante estes anos em
que o senhor está aqui?
Valdomiro:
Tinha
pouca gente. Aqui em cima, por exemplo, começou mesmo
a dar movimento depois que começaram a sair os bares
na avenida. Voltando atrás, em 60 e pouco, não
lembro em que ano, era tudo chão batido, não
tinha asfalto, não tinha nada, aqui teve carnaval de
rua. A avenida fez sucesso. Eu lembro, era carnaval de rua,
três dias. Carnaval de encher. Vinha gente de tudo que
era lado.
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