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Helena
da Silva Freitas é uma mulher persistente. Mãe,
esposa, professora, Técnica em Contabilidade e candidata
a vice-prefeita na última eleição municipal
em Viamão pelo PSB, ela pretende ainda se formar em Direito,
mostrando assim, como ela mesma diz, que “tudo é
possível quando se quer de verdade”. Casada com
Vladimir Freitas, mãe de Vanessa, 18 anos, e Bruno, 14,
ela gosta mesmo é de curtir os filhos, ler e passear
no shopping. Com 45 anos de idade, Helena aprecia uma boa lasanha
e um lugar bonito como Gramado. Um filme marcante em sua vida
é “Tomates verdes fritos”. Seu livro preferido:
“Videiras de Cristal”, de Luiz Antônio de
Assis Brasil. |
Nesta
entrevista realizada no HF Escritório de Contabilidade
você conhece um pouco mais sobre uma das mulheres que
é um exemplo para Viamão.
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Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista da Santa Isabel: Quando sua família
veio para Viamão?
Helena Freitas: Foi em 1965. Nós morávamos
na Ilha da Pintada. Na minha rua tinha três casas, o
resto era só mato.
Revista: A senhora Estudou onde?
Helena: Comecei a estudar no Faicker Nunes. Era uma
casa de madeira de quatro peças. Eu estudava na cozinha
da casa. Quando chovia muito não tinha aula porque
chovia na cabeça da gente. Depois estudei no Alberto
Pasqualini e terminei os dois anos do ensino médio
no São José Murialdo. Fiz pré-vestibular,
prestei vestibular duas vezes na Ufrgs, e na Fapa passei na
primeira, na Faculdade de Letras.
Revista:
Terminou o Ensino Médio e fez vestibular?
Helena: Não. Terminei o Ensino Médio
e fiquei um tempo sem estudar. No São José Murialdo
eu fiz o Ensino Médio e o Técnico em Contabilidade
ao mesmo tempo. Depois de um certo tempo, fiz o vestibular.
Entrei na faculdade oito anos depois de ter terminado o Ensino
Médio.
Revista:
Quando a senhora começou a trabalhar?
Helena: Comecei a trabalhar com 16 anos, no comércio.
Meu pai não tinha mais condições de pagar
meus estudos. Sai de casa um dia e disse para minha mãe:
só volto para casa empregada. E voltei empregada, como
vendedora nas Lojas Brasileiras. Nessa época estudava
no Alberto Pasqualini, Ensino Médio. Trabalhava das
8h30 às 18h30 em Porto Alegre. Pegava o ônibus
18h45 pra chegar aqui e ainda dar tempo de estudar.
Revista:
Em que ano?
Helena: Era 1980.
Revista:
Tinha ônibus naquela época?
Helena: Sim. Não podia perder o direto. Se
eu perdesse o direto, perdia o horário da aula. A minha
mãe mandava um lanche pra mim por uma prima. Eu nem
passava em casa. Saia de casa cedo e só voltava depois
da aula. Eu comecei a conhecer mesmo a Santa Isabel quando
vim trabalhar aqui.
Revista:
E o comércio?
Helena: Muito pouco, mas a avenida sempre foi o foco
do comércio, claro, hoje mais acentuado. Tanto é
que todo o comércio que abria fora da avenida Liberdade
fechava. Porque as pessoas vinham lá de onde eu moro,
no Monte Alegre, Jarí, pra comprar na avenida. O passeio
das pessoas é ir à avenida comprar alguma coisa.
Quando eu comecei com o escritório de contabilidade,
eu abri lá em casa, tinha cópias, tinha tudo,
mas as pessoas passavam por lá e diziam “vou
tirar cópia lá na avenida”. É como
um hábito, um passeio. Não é cansativo
vir na avenida. O centro da avenida é um local de compras,
lazer etc.
Revista: Nas Lojas Brasileiras, quanto tempo a senhora
trabalhou?
Helena: Trabalhei pouco. Foi o meu primeiro emprego.
Trabalhei pouco porque recebi um convite para trabalhar na
empresa de ônibus daqui, a Rodovilas. Lá eu era
vendedora, ganhava pouco. Na Rodovilas o salário era
bem melhor, uma função melhor dentro da expectativa
que eu tinha na área administrativa. Depois de um ano,
fui trabalhar em Porto Alegre novamente, em um consórcio.
Trabalhava no setor de contemplação e depois
fiquei como encarregada no setor. Trabalhei quatro anos lá.
Revista:
Depois do consórcio, onde a senhora trabalhou?
Helena: Eu fui convidada a gerenciar uma empresa
de um dos gerentes do consórcio. Trabalhei alguns meses
nessa empresa e resolvi sair. Daí fui trabalhar em
uma empresa de pesquisa. Foi quando resolvi fazer faculdade,
Sociologia. Atraída pelo ramo de trabalho em que eu
estava, pesquisa de mercado, optei por fazer Sociologia. A
dona da empresa me ajudou muito, pois no começo era
ela quem pagava a faculdade. Depois de duas tentativas em
Sociologia eu resolvi fazer Letras, sem saber o que era na
verdade a faculdade de Letras, pois a maioria não sabe
o que é o curso. Comecei a fazer a faculdade e daí
começou a despertar a paixão.
Revista:
Em que ano isso?
Helena: Era por volta de 89.
Revista:
E depois, quando a senhora saiu da empresa de pesquisa?
Helena: Trabalhei quatro anos com pesquisa de mercado.
Depois a empresa foi embora para São Paulo e eu fui
trabalhar em um escritório de contabilidade. Trabalhava
meio período e nessa época eu já tinha
a Vanessa. Passei muita dificuldade com ela porque ela enjoava
no ônibus e a viagem até Porto Alegre levava
45 minutos. Ela ia comigo e ficava em uma creche na frente
do meu emprego. Muitas vezes ela vomitava no ônibus
e eu tinha que chegar e trocar de roupa na ida e na volta.
Tinha o direto e se eu perdesse o direto, tinha que descer
na parada 32 e pegar um táxi porque a Vanessa não
agüentava a viagem. Ela ficava branca da cor de um papel.
Naquela época o Vladimir trabalhava de largador na
empresa de ônibus Viamão, quando o horário
dele coincidia ele passava de carro e me pegava. Se ele saísse
mais cedo, ele passeava com ela na pracinha ou no Parque Marinha.
A mesma coisa na faculdade, ele ficava com ela enquanto eu
assistia à aula. Isso já era 1990.
Revista:
Como vocês dois se conheceram?
Helena: Na verdade nós nos conhecíamos
desde o tempo do colégio. Eu sempre fazia excursões
para a praia naquela época. A única maneira
de ir para a praia era através de excursões
e eu sempre organizava, conhecia muita gente, inclusive o
pessoal dos ônibus. Em uma dessas viagens à praia
ele chamou atenção da minha irmã, das
minhas colegas, menos a minha. Coincidentemente ele começou
a cruzar o meu caminho seguidamente, nas minhas idas e vindas
a Porto Alegre. Eu chegava e dizia pras meninas “vi
aquele menino que vocês acharam bonitinho”, e
quando eu vi, o cupido havia me flechado. A paquera durou
uns três meses. Começamos a namorar em 83 e casamos
em 85. A Vanessa nasceu em 89.
Revista:
Como começou a HF?
Helena: Bom, quando eu trabalhava no escritório
de contabilidade em Porto Alegre, eu praticamente assumi o
escritório. Como sempre, aquela minha coisa de liderança,
organização, comecei a estruturar, organizar
e parece que aquela estruturação e organização
não agradaram muito ao dono. Ele começou a achar
que eu estava tomando conta do escritório dele. As
pessoas ligavam para lá e queriam falar comigo, pois
eu sabia tudo. Então eu comecei a introduzir no escritório
muitas melhoras e as pessoas diziam “realmente como
mudou aqui”.
E ao invés de satisfazê-lo, porque eu não
tinha o mínimo interesse em trabalhar para mim, ele
começou a me tratar com antipatia e não tinha
coragem de me dizer que aquilo o estava incomodando. Um dia
ele me convidou a tirar umas férias forçadas,
foi bem assim que ele disse. Daí eu vi que não
precisava passar por isso e sim poderia trabalhar para mim.
Foi o que fiz, tirei o meu registro. Abri o meu escritório
ali na Cecília. Numa casa que o meu pai alugava, pois
ele tinha uma borracharia e como não precisava da casa
mas só da garagem, eu fiquei na casa. Comecei com um
cliente que era o meu pai e fui subindo cada degrau. Comecei
lá na Cecília em 91. Devo ter ficado lá
uns dois anos. Depois, vim para a minha casa, no bairro Monte
Alegre, onde não deu certo por não ser um bom
local. Então aluguei uma sala ao lado do bazar Furlan
e vim para cá, depois, aqui na avenida. Estou aqui
já faz cinco anos.
Revista:
E a faculdade, quando terminou?
Helena: Terminei em 95.
Revista: Logo foi dar aula?
Helena: Não. Terminei a faculdade e continuei
no
escritório. Em 2002, passei no concurso para o Estado.
Fui chamada dois meses após e assumi em maio de 2002.
Estou há um ano dando aula.
Revista: Qual matéria?
Helena: Língua Portuguesa e Literatura.
Revista: Ensino Médio?
Helena: Ensino Médio para EJA.
Revista: Começou na EJA?
Helena: Sim. Eu tive uma experiência muito
rápida com o Ensino Regular, algumas semanas.
Revista: Foi o início da EJA em Viamão?
Helena: O começo da EJA em Viamão foi
na escola Setembrina, e eu comecei bem no início da
implantação da EJA. Para mim não houve
a dificuldade de adaptação que os outros professores
tiveram, porque eu estava começando ao mesmo tempo.
Eu entrei junto. A gente diz da EJA porque é a Educação
de Jovens e Adultos.
Revista: Dar aula era mesmo o que a senhora queria?
Helena: Mais uma vez eu senti que estava no caminho
certo. Uma nova paixão na minha vida. Na verdade, o
magistério pra mim é uma nova paixão.
É o oposto do que eu faço de dia, mas é
muito encantador. Pessoas que têm a consciência
que ficaram muito tempo fora da sala-de-aula mas que voltaram
com objetivos, com muita garra.
Revista: Como foi sua experiência na política?
Helena: Eu fui convidada pelo Nestor Maltha a me
filiar ao PSB, em 1999, e comecei a participar das reuniões
do partido. A ideologia do partido me agradou, porque eu já
tinha visitado outras reuniões, de outros partidos
e não tinha me interessado.
Revista: Mas já existia o interesse em participar?
Helena: Sim. Já tinha pensado em concorrer à
vereadora, porque, quando eu comecei a trabalhar na cidade,
eu comecei a perceber que a gente consegue viver daqui. Se
todos investissem aqui, comprassem aqui, estimulassem o comércio
daqui, as coisas mudariam. Filiei-me ao partido e naquelas
reuniões eles queriam um nome feminino para o cargo
de vice-prefeita. Convidaram-me e eu aceitei com a condição
de que aquilo não influenciasse no meu trabalho, mesmo
que representasse não vencer a eleição.
Eu sempre separei muito bem a política e o meu trabalho.
Não fiz nenhum tipo de campanha aqui dentro do escritório.
Concorri então, em 2000, à vice-prefeita. Hoje
eu continuo no partido como colaboradora, não tendo
nenhum anseio político.
Revista: O que ficou desta experiência?
Helena: Uma experiência muito boa. A gente
conhece muitas pessoas com ideais iguais aos teus. Muitas
pessoas que querem fazer alguma coisa mas realmente não
sabem por onde começar. E também a triste constatação
de que se tu não tens muito dinheiro para investir
em uma campanha política, tu não consegues atingir
o público no geral. Tu consegues chegar aos teus amigos,
indicações, mas não ao público
geral. Essa falta de dinheiro, às vezes, impede que
pessoas como eu, pequenos empresários, que querem fazer
alguma coisa, com espírito de liderança, de
fazerem algo porque não conseguem atingir o público.
Por isso é que estão sempre os mesmos no poder.
Eles têm como se tornarem conhecidos pelo povo.
Revista: Na sua opinião, o que mudou para melhor
na Santa Isabel?
Helena: Eu valorizo muito a Santa Isabel. A Santa
Isabel hoje é um centro, independente do centro de
Viamão. É um outro centro dentro de Viamão.
Temos boas lojas. Agora outro banco. A evolução
da Santa Isabel está a olhos vistos. Os próprios
moradores estão acreditando no local onde moram.
Revista: E o futuro de Helena da Silva Freitas?
Helena: Para o futuro eu tenho um projeto. Era para
este ano mas eu adiei para o ano que vem. No ano que vem eu
ingresso na faculdade de Direito. O grande sonho da minha
vida é ser advogada.
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