Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista
da Santa Isabel: Em que cidade o senhor nasceu?
Italvino Turani: Eu venho do Rio da Prata, no 4º
Distrito de Veranópolis. Lá era puro mato, não
tinha nada. Só passarinho cantando. O local onde eu
morei fica a 20km do centro de Veranópolis. Agora o
4º Distrito se emancipou e passou a se chamar Vila Flores.
Revista:
Até que idade o senhor morou lá?
Turani: Eu fiquei lá até os meus 26
anos, junto com o pai e a mãe, ajudando a dirigir.
Trabalhei muito na agricultura. Plantávamos milho,
trigo, soja, laranja...
Revista:
Quantos irmãos o senhor tinha?
Turani: Nós éramos sete irmãos.
Eu sou o mais velho de todos. Desde quando eu era pequeno,
tudo era eu que fazia. Eu dirigia, eu pagava as contas. Eu
estudava pra padre, saí do seminário, fui pra
casa e me decepcionei com as condições em que
meus pais viviam. Começamos a trabalhar, derrubar mato
e fazer plantação. Em seis anos nós compramos
uma camioneta nova.
Revista:
O senhor estudava naquela época?
Turani: Sim, estudei em colégio de padre durante
três anos. Foi muito importante para a minha formação.
Aprendi a ler, escrever, rezar e respeitar as pessoas. O colégio
era em regime de internato, eu ia para casa uma vez por ano.
Sofri muito, minha mãe me visitava uma vez por mês
trazendo sempre uma lata cheia de bolacha caseira. Eu distribuía
tudo para os meus amigos.
Revista: E além de trabalhar na colônia, o senhor
trabalhou em outro local?
Turani: Eu trabalhei no Batalhão Ferroviário.
Eu comecei como britador, depois passei à limpeza de
avançamento de trilhos. Depois, passei a mestre da
limpeza de trilhos. Fiquei uns dois, três anos e pouco
e saí. Eu tinha 20 anos na época.
Revista:
A sua esposa, o senhor a conheceu lá mesmo?
Turani: A minha esposa eu conheci lá mesmo,
nas festas das igrejas. Ela é de Nova Prata. Nos casamos
quando eu tinha 21 anos.
Revista:
E o primeiro filho?
Turani: Ficamos uns três anos sem filho. Quando
nasceu o primeiro, o José, a gente resolveu mudar de
trabalho. Fui trabalhar de motorista de caminhão de
carga, mas não deu certo..
Revista:
Como foi a exeperiência de motorista?
Turani: Era muito sacrifício. Saía
um dia e voltava depois de 15, 30 dias. Carregava daqui para
o Rio de Janeiro, de lá ia para São Paulo. Depois
carregava para o Recife, de lá voltava para São
Paulo. Às vezes eu ia carregar e não tinha carga.
Esperava dias pra conseguir. Eram, algumas vezes, 15 dias
parado esperando carga. Eu não agüentei. Eu fiquei
durante quatro anos e larguei.
Revista:
E o que o senhor fez?
Turani: Eu vim para casa e pensei: o que vou fazer?
Na colônia não dava mais, então vim para
a Santa Isabel trabalhar junto com meu tio.
Revista:
O Antônio Furlan?
Turani: Isso. Ele é meu tio por parte de mãe
e meu padrinho. Me ensinou a trabalhar e negociar, foi um
exemplo para mim.
Revista:
E quando foi que o senhor veio para cá?
Turani: Quando eu cheguei acho que era 1960.
Revista:
Veio com a família?
Turani: Não, eu vim sozinho. Eu nunca troquei
a minha família de lugar sem saber para onde ela iria.
Eu fiquei três meses sozinho e depois fui morar em uma
casa ali na Paróquia, cedida pelos padres. Foi quando
eu trouxe minha família. Eu morei ali durante dois
anos. Nesse meio tempo eu comprei uma casa de madeira. Daí
fui melhorando, construindo, até transformar em alvenaria.
Revista:
E o que o senhor fez quando chegou?
Turani: Eu trabalhava no Supermercado Furlan. Trabalhava
de açougueiro, motorista, caixa, o que tivesse para
fazer. Onde faltava gente eu estava.
Revista:
E no supermercado, o senhor trabalhou durante quanto tempo?
Turani: Eu trabalhei cinco anos com o meu tio.
Revista:
E quando o senhor saiu do supermercado?
Turani: Um dia eu fui lá para fora buscar
uma carga de feijão para o supermercado e acabei decidindo
iniciar o meu próprio negócio. Comprei um caminhão
com a ajuda do José Grassi e comecei no ramo de transportes.
No início, transportava tomates, com o fim da safra
troquei pelo transporte de melancia. Mas como não dava
dinheiro, decidi levar mudanças. Como meu caminhão
era aberto e ninguém aceitava mudança, precisei
colocar um baú. No primeiro mês eu consegui pagar
a prestação do caminhão. O primeiro carreto
que eu fiz foi para os padres e assim comecei. Paguei o caminhão
em dois anos e comprei depois, com o tempo, mais quatro. Fiquei
no total com cinco caminhões na mudança e uma
tombadeira transportando brita.
Revista:
E depois das mudanças o que o senhor fez?
Turani: Com o passar do tempo, surgiram exigências
e aumentou a concorrência. Foi preciso baixar o frete
e daí começou a baixar o lucro.
Revista:
Então o senhor decidiu abrir a fruteira?
Turani: Eu comprei os terrenos aqui da esquina e
abri a fruteira. Nós demoramos um ano para fazer o
ponto.
Revista:
Em que época isso?
Turani: Acho que 88, 89, lá pelo final dos
anos 80.
Revista:
E o hotel quando começou a funcionar? Por que o senhor
investiu neste negócio?
Turani: O restaurante está funcionando há
três anos. O hotel tem dois anos que foi aberto. Meu
sonho desde pequeno era construir um edifício, a minha
casa e dar um terreno para cada filho, então surgiu
o hotel e o restaurante, pois na Santa Isabel não existia
nenhum empreendimento na área de hotelaria..
Revista:
Foi difícil construir o hotel?
Turani: Foi muito difícil, pois vendi alguns
bens que me pertenciam. A obra levou um ano para ficar pronta.
O difícil foi o acabamento.
Revista:
Hoje, o que o senhor administra?
Turani: Eu administro tudo com a ajuda da família.
Minha esposa cuida do restaurante, meus filhos do transporte
e da fruteira.
Revista: Hoje, o que o senhor administra?
Turani: Eu administro tudo com a ajuda da família.
Minha esposa cuida do restaurante, meus filhos do transporte
e da fruteira.
Revista:
O senhor valoriza muito as pessoas que vêm do interior,
por quê?
Turani: Valorizo todas as pessoas. Eu vim di interior
e no portanto sei das dificuldades que as pessoas enfrentam
no dia-a-dia. Desde cedo comecei a trabalhar ajudando meus
pais. Quando se vêm para a cidade, querem trabalhar,
conquistar seus objetivos. São pessoas humildes.
Revista:
Quando o senhor chegou aqui, a Santa Isabel era pouco evoluída?
Turani: Quando eu vim aqui na primeira vez, me aborreci
e fui embora. Eu vim do meio do mato para continuar no meio
do mato, então voltei para lá.
Revista:
O senhor sempre participou da igreja?
Turani: Sim. Sou católico. Estudei no seminário
e sou devoto de Nossa Senhora do Caravagio. Gosto muito de
ir à igreja aos domingos.
Revista:
E sua esposa esteve sempre junto lhe apoiando?
Turani: Sim, esteve sempre do meu lado, nas horas
boas e ruins, trabalhando junto. Minha esposa é o alicerce
da família.
Revista:
O senhor teve uma participação na política
em 2000. Como foi essa experiência?
Turani: Eu fui candidato a vereador, recebi 210 votos,
tinha muitos planos para ajudar a comunidade. Não fui
eleito, então resolvi não me envolver mais,
por não ter experiência. Espero que os políticos
cumpram com seus deveres e obrigações.
Revista:
Hoje em dia o senhor fica um pouco no hotel, na fruteira,
no bar... O que o senhor constuma fazer?
Turani: Eu fico um pouco no hotel, na fruteira. Duas
vezes por semana eu vou na Ceasa comprar frutas e verduras.
Dou início nos afazeres do dia, acompanho e resolvo
os negócios.
Revista:
E o senhor pretende continuar trabalhando ou pensa em se aposentar
?
Turani: Nunca vou deixar de trabalhar, pois trabalhar
faz parte da minha vida.