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Guilherme
Spann é o eternamente Padre Guilherme. Holandês,
Pe. Guilherme tem uma belíssima história de vida.
Guilherme nasceu no dia 31 de janeiro de 1930, em Heemstede,
cidade da Holanda distante 25 quilômetros de Amsterdã,
capital do país. A cidade é semelhante a Viamão,
em relação à Porto Alegre. Agora, ele está
casado com Maria de Mesquita Spann, 62 anos, que conheceu aqui.
Depois de dez anos se casaram, após ele ter deposto o
seu ministério. |
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Com
Maria, Padre Guilherme tem o filho Jacques, 32 anos, e adotou
com o coração Nélson Luis, 44, Nara Lúcia,
42 e Maria Guilhermina, 41, filhos de Maria com o primeiro
marido, sendo que ela ficou viúva enquanto morava Na
Santa Isabel. Guilherme e Maria têm nove netos e vivem
em São Paulo, atualmente. Durante a visita feita ao
bairro em dezembro do ano passado para receber uma homenagem
no 1º Baile da Primavera, Padre Guilherme concedeu esta
entrevista:
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Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista da Santa Isabel: Quando começou a sua
história com a vida religiosa?
Pe. Guilherme: Nasci em Heemstede e lá passei
a minha infância, depois fiz o primário e fui
para o seminário. Primeiro fiz um ano do seminário
diocesano. Em julho de 45, eu fui para os Oblatos, a congregação
da qual eu fiz parte. Lá da minha cidade vieram vários
seminaristas dos Oblatos para o Brasil, incluindo Viamão
e Palmeiras das Missões. De Heemstede veio o padre
Martinho, que me ajudou durante muitos anos aqui. Eu me ordenei
padre em julho de 56. Depois, fiz um curso médico para
missionários. Fui nomeado para a África do Sul,
e para preencher o tempo disponível, eu trabalhava
na propaganda missionária. Lá, de alguma maneira,
ficaram sabendo que eu não concordava muito com o Apartheid,
da África do Sul. Então o governo pesquisou
e descobriu um dossiê negativo sobre mim e minha entrada
na África foi recusada. Acabei sendo nomeado para a
América do Sul, no Brasil.
Revista:
Então o senhor veio para Viamão?
Pe. Guilherme: Aqui, naquela quadra acima da igreja
Adventista, o então superior havia comprado uma área
para a futura casa de estudos, como temos agora. O arcebispo
de Porto Alegre, na época o Dom Vicente Scherer, permitiu
que fosse construída a casa, com a condição
de que nesta região nós tivéssemos também
a Paróquia, e daí eu entrei na história.
Quando eu vim para o Brasil não conhecia ninguém,
não falava português. Então eu comecei
a visitar as pessoas. Cheguei ali no Restaurant Santa Izabel,
conheci a dona Natalina e o Severino. Comecei a aprender português
com os meninos que estavam crescendo. Iniciei rezando na capelinha
da Medianeira, o Mainar (Bonetto) era o meu primeiro coroinha.
Revista:
O senhor sempre foi muito participativo nos projetos da comunidade,
em quais projetos mais o senhor participou na época?
Pe. Guilherme: Eu queria que, através do padre,
a Igreja estivesse presente. Além das obras e organizações
internas da Paróquia, ajudei a organizar o Ginásio
Alberto Pasqualini. Eu procurava, principalmente, estar presente
onde havia sofrimento.
Revista:
Em que ano o senhor chegou aqui?
Pe. Guilherme: Eu cheguei aqui em janeiro de 1960.
Duas semanas depois completei trinta anos de idade. Nos primeiros
meses morei no Seminário em Viamão.
Revista:
Quando o senhor chegou não havia igreja aqui?
Pe. Guilherme: Tinha aquela capelinha na Medianeira
que acabou em pedaços, mais nada.
Revista:
O que o senhor começou a fazer quando chegou?
Pe. Guilherme: Comecei a observar as pessoas, da
região, fiz um mapa da mesma, fazer o contato com o
povo. Um dos primeiros descobrimentos que eu fiz, era que
aquela capelinha da Medianeira estava muito afastada, longe
de tudo. A avenida passava por baixo, todo o comércio
começava aqui. O centro era aqui. Os terrenos da avenida
eram mais regulares. O futuro da Vila era aqui na Liberdade.
Conversei com o pessoal, com o dono do terreno. Comecei a
desenvolver as amizades aqui. A Imobiliária Diamantina
me deu quatro terrenos de presente, sendo um deles na esquina
com a Rincão. Troquei um terreno aqui atrás
onde está a escola. A Paróquia Pão dos
Pobres me pagava três terrenos aqui também. Daí
começou a surgir a idéia de construir o Salão
Paroquial, ali naquela baixada. O Quintino Bonetto tinha uma
máquina retro escavadeira e se dispôs a terraplanar
o terreno todo. O Bonetto foi um dos grandes homens deste
bairro. O engenheiro Marcon calculou as armações
e o doutor Scheider fez a topografia do local. Depois
veio uma engenheira e deu uma olhada nos desenhos. Surgiu
a idéia de fazer o Salão embaixo, bem grande.
Pelo terreno que tinha disponível, eu poderia fazer
uma igreja de 42 metros de comprimento e 17 metros de largura,
com os terrenos que eu tinha na época. E para aproveitar
o espaço todo, projetamos um salão sem colunas,
mas com arcos.
Revista:
A construção do Salão foi feita pela
comunidade?
Pe. Guilherme: Todo o concreto, as vigas, arcos,
colunas, o piso da igreja foi tudo realizado pelo povo da
Santa Isabel. Tudo feito através de mutirão,
cada centavo.
Revista:
E onde o senhor morava na época?
Pe. Guilherme: Eu tinha uma casinha ali na rua Maranhão,
que hoje tem o meu nome. Eu já morava ali quando comprei
uma lambreta. Chamavam-me de “Padre transviado”
porque eu tinha aquela lambreta. Ou me chamavam de “Padre
Fidel Castro” (barba!).
Revista:
O senhor tinha uma Kombi que era usada como ambulância,
é verdade?
Pe. Guilherme: Em 1966, quando eu voltei da Holanda,
eu ganhei dinheiro de uma entidade holandesa que providencia
veículos para missionários e comprei aqui a
Kombi. Naquela época tinha um médico que cobrava,
uma farmácia que cobrava, ou seja, não tinha
absolutamente nada no que diz respeito ao atendimento médico
que beneficiasse a necessidade da comunidade de pobres. Pois,
naquela época, tinha muita pobreza e miséria,
e uma total falta de recursos.
Revista:
E que atendimento era dado?
Pe. Guilherme: Eu fiz o curso médico-higiênico
para missionários, após o seminário.
Eu ajudava quem tinha abscesso, um cisco no olho. Fazia curativos,
com cortes, machucados e acidentes domésticos, e levava
casos mais sérios para o Pronto Socorro em Porto Alegre;
até duas viagens numa só noite. Viva a Kombi!
Revista:
Como o senhor explica aquele seu visual com barba, bigode?
As pessoas achavam estranho?
Pe. Guilherme: A barba, eu deixava crescer porque
me doía muito ao fazê-la. Eu usei a barba grande
durante vários anos. O povo nunca protestou. As crianças
davam um puxão para ver se “era de verdade”.
(ai!!!)
Revista:
Quando veio para cá o senhor tinha uma missão?
Pe. Guilherme: A minha missão era fundar esta
Paróquia. Então, eu sou o fundador desta Paróquia.
Como o bairro se chamava Santa Isabel, a empresa de ônibus
se chamava Santa Isabel, então foi unanimidade que
a Paróquia deveria se chamar Santa Isabel também
pois o nome era uma identificação, já
estava pronto.
Revista:
E no início quem mais trabalhava junto?
Pe. Guilherme: Trabalhava sozinho, sem conhecer a
língua. Mas tinha gente que começou a ajudar:
o grupo crescia. Em 1964 veio o Padre Martinho, que ficou
aqui quando eu saí, em 1969. Foi o colaborador dedicadíssimo,
alegre e bem quisto pelo povo.
Revista:
Começou com o senhor a Casa de Formação
aqui na Santa Isabel?
Pe. Guilherme: Não, eu não tinha nada
a ver com a Casa de Formação. O meu compromisso
era a Paróquia; a Casa era do Padre Nico Vink, também
holandês e da mesma cidade, Heemstede. Esta casa começou
a funcionar em 1969.
Revista:
O senhor saiu daqui em 70 e foi morar onde?
Pe. Guilherme: Eu saí no dia 26 de dezembro
de 1969. Eu já tinha combinado de morar junto com um
amigo no apartamento dele no Rio de Janeiro, por enquanto..
Revista:
E o casamento com a Maria quando aconteceu?
Pe. Guilherme: Ela ficou viúva em 1968. Eu
saí em 69. Depois, nos casamos. Ela era da Paróquia
aqui. Nos casamos no dia 13 de julho de 1970. Eu tinha 40
anos e ela ia fazer 30. Casamos em Porto Alegre, em um cartório.
Eu já tinha pedido a dispensa em Roma e casamos pela
Igreja.
Revista:
Por que vocês foram para São Paulo?
Pe. Guilherme: Eu estava trabalhando como tradutor
para a empresa que estava construindo a Borregaard. Os donos
me convidaram para ir primeiro a Mogi das Cruzes e depois
a São Paulo. Isso foi em setembro de 70. Naquela época,
o material usado nas obras como a Borregaard, era tudo importado
e, por isso, os engenheiros que montavam vinham do exterior.
Eu trabalhava como um intérprete entre os engenheiros
e o pessoal que construía. Depois de quatro anos naquela
empresa de montagem, o proprietário me convidou para
iniciar uma filial de uma firma Finlandesa. Começamos
a trabalhar em maio de 74. Sou funcionário desde o
início da empresa. Há alguns meses atrás
eu me aposentei, depois de 29 anos trabalhando lá.
Revista:
O senhor sempre foi tradutor?
Pe. Guilherme: Não, eu comecei como organizador
e chefe do departamento de documentação técnica.
Aqui (São Paulo) também precisava-se de conhecimento
de línguas. Também lecionei muito, mas depois
de 89 só fui tradutor.
Revista:
Hoje o senhor está aposentado?
Pe. Guilherme: Sim, parei mesmo no dia 16 de outubro
de 2003, mas procuro sempre fazer algo: ajudar na igreja,
mexer com meus trenzinhos, ajudar em casa...
Revista:
Para o senhor como um homem religioso, qual a importância
da família em sua vida?
Pe. Guilherme: A família é, em todos
os sentidos, o início de tudo na vida. Se a base familiar
foi boa, com valores religiosos, a família permanece
unida.
Revista:
Todos os anos o senhor visita a Santa Isabel? A semente que
foi plantada naquela época já se transformou
em uma árvore de bons frutos?
Pe. Guilherme: Impossível achar palavras para
expressar a felicidade que sinto, quando vejo pulsar a vida,
a união, a cordialidade e a religião, lá
no bairro que, com a graça de Deus, pode ajudar a crescer.
Revista:
Por que o senhor deixou a vida religiosa?
Pe. Guilherme: Com enorme entusiasmo comecei a minha
vida sacerdotal. Queria fazer tudo o que precisava ser feito.
O II Concílio Vaticano, que terminou em 65, trouxe
muitas idéias novas, com as quais eu me identificava.
Mas logo senti muitas decepções: o conservadorismo
tradicional da Igreja venceu, e muitas novidades prometidas
não se realizavam. Comecei a me decepcionar: não
era isso que eu queria, nem para mim, nem para o povo. E não
queria entrar em conflito com a Igreja, ou pregar o que não
me convencia.
Após pensar muito, decidi seguir como leigo, o que
me doeu muito! Mas tudo o que depois ainda pude fazer, nos
26 anos na Paróquia onde agora moramos, me leva à
conclusão: “a gente pode ser sacerdote de muitas
maneiras!”
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