Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista
da Santa Isabel: Quando o seu pai, Quintino Bonetto, veio
para a Santa Isabel?
Mainar Bonetto: O pai veio no ano de 54. Ele veio junto com
o pessoal para trabalhar na empreiteira, vindo antes da família.
Ele ficou aqui um ano, um ano e meio e depois vieram minha
mãe e nós, os filhos.
Revista:
Vieram de onde?
Bonetto: Caxias do Sul. Na época eu tinha sete anos,
mais ou menos. O Sérgio tinha uns quatro anos. As gurias
nasceram aqui.
Revista:
E por que ele veio para cá?
Bonetto: Ele já tinha serviço certo que seria
o começo deste loteamento, a Santa Isabel. Eles vieram
para cá, a idéia deles era ficar um ano trabalhando
e ficaram uma vida.
Revista:
Ele trabalhou até quando na empreiteira?
Bonetto: Ele ficou trabalhando até praticamente ela
se dissolver. Foi durante anos. Depois de um tempo, o pai
começou a trabalhar fora. Ele residia na Santa Isabel
e trabalhava fora. Sempre na mesma tarefa, na terraplanagem.
Revista:
Ele teve outra atividade fora isso?
Bonetto: O pai se aposentou fazendo isso. Quando ele se aposentou,
quase não teve tempo de tirar proveito da aposentadoria.
Revista:
Como foi a adaptação de Caxias para Viamão?
Bonetto: Pra nós era um outro mundo, sair do interior
e ir para a capital. Foi bom demais. Era o que a gente esperava,
bem mais.
Revista:
Como era naquela época aqui?
Bonetto: A primeira igrejinha que teve aqui na Santa Isabel
era ali na Medianeira e de madeira. O nosso primeiro padre
que veio para cá era o padre Antônio. Depois
do padre Antônio veio o Guilherme. Eu fui um dos primeiros
coroinhas deste lugar, naquela época se chamava ajudante
de missa. Eu fui coroinha até 18 anos, já era
marmanjo. O pai não obrigava, mas era sagrado, todo
domingo, era missa e depois tava liberado. Quando não
tinha que ajudar a mãe a fazer a massa ainda, naqueles
rolos, manual.
Revista:
Onde era a casa de vocês?
Bonetto: A primeira casa, ali onde tem o bar do Valter (Recreio
Avenida) e tem, à direita quem sai, tem quatro ou cinco
casas iguais, a última à direita era a nossa.
Muitos anos a gente morou lá. O pai foi embora daqui
para Novo Hamburgo. Surgiu um serviço bom lá
e ele foi com a máquina que ainda restava, um trator
que ficou com ele. Ele tinha parte na empresa que iniciou
aqui, ele tinha algumas cotas e ficou com uma máquina,
um trator de esteira. Como em Novo Hamburgo não tinha
naquela época trator de esteira, ele foi morar lá.
Naquele meio tempo eu casei. Meu início, eu ia para
Novo Hamburgo toda segunda-feira e voltava no final de semana,
no sábado. Minha mulher ficava aqui, morávamos
na rua ao lado do posto e ela ficava aqui me esperando.
Revista:
Vocês casaram em que ano?
Bonetto: Em 1968. Nos conhecemos aqui. Naquela época
eu morava aqui na Barão e isso aqui, onde está
o posto, existia o que sobrou da Metalúrgica Heraud.
O pai da Beatriz tinha um bar onde hoje funciona a Drogafar.
Ali era uma casa de jogo onde a gente jogava. A Beatriz passava
volta e meia e eu dizia, digo agora e dizia antes, “um
dia eu vou pegar essa mulher pra dar um arrocho, não
vai escapar”, e uma vez, sem mais nem menos, em uma
reunião dançante a gente dançou junto
e aí começou.
Revista:
E o futebol, jogava já naquela época?
Bonetto: Eu devia ter uns 17 pra 18 anos na época quando
o Nápoles surgiu. No Santa Isabel eu joguei pouco tempo.
A nossa diversão na época, não tinha
outra coisa a não ser futebol, então se jogava
sábado à tarde, domingo pela manhã e
também à tarde. Como a direção,
quem comandava o Santa Isabel, exigia que a gente estivesse
cem por cento no domingo, tinha que estar inteiro, é
lógico que a gente não estava. Virou e mexeu,
nós éramos três, quatro, a gente decidiu
juntar um pessoal nosso e montar um “expressinho”,
um time diferente e daí partiu a idéia. Aos
poucos nós fomos juntando um aqui, um ali. O Nápoles
foi assim, um clube que a gente participou e que fazia parte
da gente. A gente não queria perder nunca, valendo
ou não. Chorava se perdia o jogo. Quem me acompanhava
muito na época, que gostava muito de futebol, o pai
não perdia um jogo que eu ia. Onde eu estivesse ele
estava junto. Nós disputamos campeonato na época,
uma vez na Augusta, de chegar lá e estar ganhando de
goleada, 3x0, e ter que entregar o jogo por que senão
os caras iam pro pau e não tinha quem nos defendesse.
O pai acompanhava muitas vezes e encarava, fazia a frente,
mas do que adiantava, era o pai e mais um, dois. Éramos
tudo guris, piá, mas tudo bom de bola, boleiro. O Nápoles
ficou em 3º lugar em 64, 2º em 65 e em 66 fomos
campeões de forma invicta.
Revista:
Jogou em outros times?
Bonetto: No tempo em que eu joguei bola, em todos os times
eu passei. Santa Isabel, Nápoles, Independente, Granada,
Diamantina, Lomba do Sabão, Tamoio. Depois eu fui disputar
o citadino de amadores pelo Rajada, na São Manoel.
Na época, se fosse hoje, uma meia dúzia seriam
profissionais ganhando um dinheirão. Na época
a gente queria diversão. Não almejava tanto.
Revista:
Existe um episódio em que vocês foram jogar no
interior e foram recebidos como profissionais. Como foi?
Bonetto: No Nápoles aconteceu algo assim. Nós
fomos jogar em Encruzilhada do Sul, terra do Aimoré,
que era um dos cabeças. A gente ia jogar no fim de
semana e viajamos no domingo.
O jogo era na segunda-feira, 7 de setembro, feriado. Na segunda-feira
pela manhã, quando acordamos, fomos passear pela cidade
e a gente ouvia eles anunciando “não percam,
hoje, jogo tal”. Aquilo marcou muito. O jogo foi 7 a
6, e tinha uns lances assim: em um lance a bola veio da linha
de fundo e o centroavante do time pegou a bola com as duas
mãos e colocou dentro do gol, e o juiz deu o gol. Não
dava pra fazer nada, era na casa deles. Uma hora anunciaram
a escalação do time, no alto-falante da praça,
acho que uma rádio amadora, eles falaram o time do
Nápoles, acho que informado por um de nós, e
lá pelas tantas eles não anunciaram o nome do
Manoel Teonaz, o Maneco, que era irmão do nosso treinador,
o Zé Baixinho. O Zé Baixinho ficou louco.
Revista:
Como surgiu o Posto Bonetto?
Bonetto: O pai já tinha a idéia de mudar de
ramo. Aquele posto de gasolina da parada 32 não existia
e o pai já tinha pensado em abrir um posto lá.
O meu irmão trabalhou na praça com um carro
dele, se pagou, mas teve um empurrãozinho do pai. Eu
trabalhava com o pai, chegava o fim de semana, ele pagava
o que achava o que tinha que me pagar, mas o dinheiro não
dava. Eu casado, o dinheiro não chegava, as prestações
estourando e eu marcando passo. Eu sempre tive vontade, virou
e mexeu, falei com o pai “tá na hora, vou ter
que batalhar”. Naquele meio tempo, o pai deu entrada
nos terrenos, assumiu a dívida toda, e eu fui à
luta. Procurei a Ipiranga, eles me disseram que viriam aqui
fazer um levantamento para dar uma posição.
Eu esperei, eles não vieram, daí fui lá
e disse que não ia dar. Pensei em outras companhias,
em seguida fui na Esso. Numa segunda-feira eu fui lá,
levou uma semana, na outra segunda a Esso já tava com
os equipamentos aqui. Eu fui à companhia, não
tinha nem onde cair morto, disse pra eles que eu tinha um
terreno e queria colocar um posto de combustíveis.
Eles vieram aqui, fizeram um levantamento e disseram “é
futuro e vamos abrir”. O pai tinha dado aquela entrada
nos terrenos e eu abracei o resto. A Esso instalou o equipamento,
me deram produto para trabalhar, lubrificante a perder de
vista e eu fui trabalhar. Naquela época, 24 horas por
dia, sozinho. Eu fiz um levantamento naqueles dias de quantos
carros existiam na Santa Isabel, eu levantava umas quatros
horas da madrugada e ficava marcando um por um, quantos carros
passavam. Isso foi 1970. Fiz um levantamento e passei pra
eles. A gente tirou do nada. Não tinha financiamento,
conta bancária. Eu virava as 24 horas. Daí eu
pensei: isso ta errado, como é que eu não vou
parar, não vou ir pra casa nunca, não vou descansar.
Aí eu tive que
colocar alguém pra me ajudar, trabalhava então
eu e a Beatriz.
Revista:
E esta dificuldade ficou por muito tempo?
Bonetto: A gente foi se ajeitar um pouco lá pelos anos
80. Tudo que a gente recebia, tinha que pagar as dívidas.
A gente dependia do movimento e era devagar. Eu semeei a agora
estou colhendo. Depois que vieram os filhos, eles me deram
uma grande força. O que eu ajudei, a força deles
está sendo muito maior. Eu tiro o chapéu para
eles. Eu devo muito também a minha esposa. A força
que ela e os filhos me deram foi muito importante.
Revista:
E o futuro de Mainar Bonetto ?
Bonetto: Eu estou pensando, confesso, não que eu esteja
cansado por trabalhar demais, mas eu penso que a vida da gente
é finita, e a vontade que eu tinha era deixar o posto
na mão dos meu filhos.