Entrevista
concedida à Revista Santa Isabel
Revista
da Santa Isabel: Como foi a vinda para a Santa Isabel?
Vicente Grassi: Saí de
Água Santa com três anos e fui para São
José do Ouro e em 1959 eu vim para Porto Alegre, trazido
pelo meu irmão, José Francisco Grassi. Fiquei
uma semana na casa dele e fiquei internado no mês de dezembro
no Colégio Champangnat para fazer a admissão no
Ginásio. Como eu tinha vindo da terceira série
primária, não consegui passar, daí passei
para o quinto ano primário onde fiquei até 61,
no Colégio Champangnat. Em 62 eu fiquei no regime interno
do colégio, onde tinha um regime militar, o que eu agradeço
pois tinha regra na vida. Tudo era dentro de um padrão:
tinha que levantar, tomar café, estudar; à tarde
tinha recreação. Isso me deu uma continuidade
de vida e um ideal, saber o que tinha que ser feito no dia-a-dia.
Revista: Por quê o senhor veio para cá?
Grassi: Minha família, meu irmão (José
Grassi) e o meu pai tinha uma firma em sociedade com Pedro Lottici
e os filho. Daí eles começaram a dividir, o Pedro
Lottici veio para Canoas e os Grassi vieram para a Santa Isabel.
Quem veio para cá foi o Zé e ele começou
a trazer os meus irmãos mais velhos. Aí em 60
ele me trouxe para a Santa Isabel. Na época eu vim para
trabalhar e estudar, mas com seis anos de idade coloquei na
cabeça que seria dentista. Comecei a trabalhar como balconista
na madeireira nas folgas do colégio.
Revista:
Quando o José Grassi chegou?
Grassi: Em 1954 veio o Zé Grassi. Ele montou
a Madeireira Pedro Lotici, pois naquela época quem mandava
na firma era o Pedro Lottici. Depois eles dividiram a empresa,
em 64, daí ficou Grassi.
Revista:
E os outros irmãos quando vieram?
Grassi: Depois veio o Dionísio, eu, o falecido
pai (em 1965) e quando encerrou a firma lá em Passo Fundo
ele trouxe a família. Quando o pai veio para cá,
eu fui morar com ele, no bairro Monte Alegre. Depois que ele
veio meus irmãos começaram a se deslocar. Um irmão
ficou em São José do Ouro, outro foi para o Paraná.
Para Viamão vieram também Zélia, Leda e
Ivalino.Uma irmã é religiosa e está em
São Paulo. Nós éramos nove irmãos
no total.
Revista:
E o seu pai trabalhava também na madeireira?
Grassi: Ele morava no interior de São José
do Ouro, onde se produzia a madeira que era distribuída
pelos Grassi em Viamão e os Lottici em Canoas. Chegou
um momento em que as duas famílias resolveram se dividir.
Daí o pai começou a dar a parte para os filhos,
dando para o Zé e o Dionísio. Naquela época,
a madeireira aqui estava quase falida. Meu irmão foi
para o interior comprar madeira e conseguiu levantá-la
de novo. Em 65 meu pai veio para cá e junto as minhas
duas irmãs.
Revista:
Qual era o nome do seu pai?
Grassi: Pedro Luís Grassi
Revista:
Qual era a idade dele naquela época?
Grassi: Ele já tinha 55 anos.
Revista:
O que o senhor fazia na madeireira?
Grassi: Quando eu vim para cá, tinha onze anos.
Comecei a arrumar as mercadorias na madeireira. Eu estudava
no Champagnat, à tarde eu fazia meus temas e depois ajudava
na madeireira. Depois eu fiquei um ano interno no colégio,
em 1961, daí só vinha no fim de semana. Mas eu
preferia ficar no colégio, pois lá eu tinha amigos
e aqui não conhecia ninguém. Em 62 eu saí
do internato e comecei a trabalhar na madeireira. Comecei a
trabalhar como balconista. Trabalhei na madeireira de 60 a 71,
quando entrei na faculdade.
Revista:
E quando vocês vieram para cá, como foi a adaptação?
Grassi: Eu vim com onze anos e naquela época
que me mantinha aqui era o meu irmão. Não se falava
em mesada, pegava a passagem para colégio. Lá
fora meu pai tinha criação de gado, lavoura, portanto
comia bastante. Aqui o modo de vida era bem mais simples do
que hoje. Não tinha supermercado. Fazia-se uma listinha
e ia num mercado.
Revista:
Como era a Santa Isabel naquela época?
Grassi: Tinha pouca coisa naquela época. No
Pasqualini era mato fechado. A Monte Alegre não existia.
Quando eu cheguei aqui, pra se ter uma idéia, na Cecília
tinha a piscina na frente da garagem. A água vinha daquele
valão que descia do morro, a água era limpíssima.
Eu freqüentei por um ano, depois começaram a surgir
casas e a água começou a poluir.
Revista:
O senhor participou na Paróquia?
Grassi: Na igreja eu fiquei de festeiro, quando a gente
conseguiu colocar aquele piso do lado de cima, conseguimos angariar
fundos, isso nos anos 80. Depois, eu fiquei mais uns dois anos
na comissão que fazia as festas, os bailes. Pra manter
uma obra dessas não é fácil. O pessoal
diz “ah, os padres tão levando...”, mas não
é tão fácil. Tem muito comentário,
voluntário é muito difícil. Ninguém
quer organizar um evento porque a responsabilidade é
muito grande. Eu participei também do Rotary Club de
Viamão e hoje estou mais acomodado, curtindo a família.
Revista:
Quem eram os seus amigos aqui na Santa Isabel?
Grassi: Depois que eu cheguei aqui as amizades começaram
a surgir. Nós começamos o futebol de salão,
ali onde era o colégio dos padres. Tinha a idéia
de fazer uma cancha, daí falamos com os padres e arrumamos
a quadra. Fizemos a iluminação na época,
cortamos algumas latas de massa de vidro, 18 litros, colocamos
três lâmpadas de cem watts, colocamos postes, no
dia em que ligamos não se enxergava nada, mas mesmo assim
tinha pessoas que freqüentavam todas as noites.
Revista:
Quem jogava?
Grassi: O pessoal da Brigada, o time nosso da madeireira,
era nós que organizávamos os torneios. Sempre
tinha jogo.
Revista: Como era a quadra?
Grassi: Era um areião. Não tinha nada de asfalto,
nem piso. Eu conheci o salão no Colégio Champagnat.
Lá tinha várias canchas.
Revista:
Que época era isso?
Grassi: Começamos em 68. Em 1970, quando passei
no vestibular, tinha um jogo à noite e eu vim, de cabeça
raspada, todo mundo pegando no meu pé porque eu tinha
passado.
Revista:
Como foi o vestibular?
Grassi: Fiz em 69 pra 70 e passei direto no primeiro
vestibular, na Ufrgs. Eu fiz as provas da Ufrgs e estava fazendo
na Puc. Na semana em que eu fazia na Puc, saia o resultado da
Ufrgs. No segundo dia de prova, eu louco pra saber do resultado.
Naquela época o jornal era difícil. Daqui um pouco
chegou um colega com o jornal. Eu tava quase entrando na sala
e fui olhar. Comecei de baixo pra cima, passei da letra x e
vi o meu nome. Sai vibrando. Naquele ano, na Ufrgs, a prova
era descritiva, quando fiz o vestibular foi o último
ano assim, depois começou com múltipla escolha.
Revista:
Começou a fazer faculdade e ainda trabalhava no balcão
da madeireira?
Grassi: A faculdade tomava muito tempo. Aula pela manhã,
à tarde, noite. Não tinha horário certo.
Eu ajudava na madeireira só aos fins-de-semana, quando
tinha bastante movimento.
Revista:
E na profissão quando começou a trabalhar?
Grassi: Eu montei o consultório, me formei no
dia sete de dezembro de 1973 e no dia 15 janeiro de 74 eu comecei
a trabalhar com dentista. Consegui um pouco de dinheiro com
meu pai e meus irmãos, na época era o Milagre
Brasileiro,
dinheiro era fácil, assim montei o meu consultório.
Durante a faculdade, tinha um consultório dentário
ali no colégio Alberto Pasqualini, o doutor Ismael, eu
ia lá e praticava. Na época tinha o Projeto Rondon,
eu participei de um levantamento em todos os colégios
de Porto Alegre. Depois fui à Nova Petrópolis
e fiz o mesmo. Teve também um Projeto Rondon nacional
onde eu fui para a Bahia, em Lençóis. Lá
eu dava atendimento em um local muito precário, abandonado,
isso em 1973. Eu e alguns estudantes de medicina e outras especialidades.
Fiquei lá durante 30 dias. Foi lá que eu comecei
a perder o medo.
Revista:
Foi difícil cursar a faculdade naquela época?
Grassi: Na época eu não estava muito
bem financeiramente. Eu morava na Monte Alegre, descia até
o campo do Jarí e pegava um ônibus Passo Dorneles.
Daí eu descia no Hospital de Clínicas e atravessava
até a faculdade. A outra opção era pegar
o Santa Isabel e descer no Julinho (Colégio Júlio
de Castilhos).
Revista:
E como começou a atender no consultório?
Grassi: Quando eu me formei tinha duas idéias:
ou ficava aqui ou ia para o interior de Santa Catarina ou Paraná,
por onde eu tinha andando. Daí surgiu uma peça
ao lado da farmácia Panvel. Montei o escritório
e comecei ali. Na época tinha um ou dois dentistas na
Santa Isabel.
Revista: O senhor tinha quantos anos?
Grassi: Eu tinha 25 anos naquela época.
Revista: Ficou naquele consultório durante quanto
tempo?
Grassi: Fiquei lá quase 15 anos. A paixão
que eu sempre tive era montar o consultório como eu queria.
Nem tanto sofisticado mas aprazível, confortável.
Depois de lá, fiquei durante dez anos ali onde agora
é a Óptica Brígido. Neste novo consultório
eu estou há um ano e meio.
Revista: O senhor completa quantos anos de atendimento?
Grassi: Em dezembro eu completo 30 anos de formatura,
mais os quatro anos de faculdade, vou completar 34 anos de odontologia.
Revista: O senhor tem algum projeto para o futuro?
Grassi: Minha filha se forma em odontologia daqui a
três anos e eu vou ajudá-la. Pretendo colocá-la
a trabalhar aqui, transformando o consultório em uma
clínica odontológica e trazendo mais alguns profissionais
para trabalhar aqui.
Revista: O que mudou do Vicente Grassi daquela época
em que estudava para agora?
Grassi: Pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa.
A gente vai amadurecendo ao olhar para trás. Nós
tentamos passar para os filhos, mas às vezes as pessoas
não acreditam. O futuro está aí, preserve
o seu futuro. Faça uma poupança para quando chegar
a velhice. Hoje está aí filas, em hospital, INSS.
Algumas pessoas tinham condições numa época,
mas não guardaram, não fizeram um pé-de-meia,
o que é difícil aqui no Brasil, onde é
que tu vais investir e vai te garantir retorno. Então
não se sabe o que vai acontecer.
Revista: Existe alguma coisa que o senhor fez e se arrependeu?
Grassi: Com toda certeza. Eu investi muito na minha
casa na Monte Alegre, depois fui vender e não consegui
o que tinha investido. Investi durante quase dez anos. Mas acabei
aprendendo com isso. |